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A maior poeta viva do Brasil mora até hoje em Divinópolis, uma cidade sossegada de 200 mil habitantes localizada a 120 km de Belo Horizonte, incrustada às margens da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Lá ela nasceu, se casou e escreveu mais de 20 livros que ganharam o mundo. Foi um de seus grandes amigos, o escritor Ziraldo, mineiro como ela, quem resumiu toda a complexidade de Adélia Prado em uma pergunta, ainda sem resposta: "Como pode uma normalista, filha de um ferroviário e de uma dona de casa, que nunca saiu de sua cidade, ter tanta compreensão da alma humana?".

Agraciada com um Prêmio Jabuti, o mais tradicional da literatura brasileira, e a Ordem do Mérito Cultural, ela é autora de poemas e narrativas em prosa que partem da singularidade da vida doméstica, da grandeza das pequenas coisas, para o mistério da existência, conciliando fé, religiosidade e, num outro extremo, o profano. Em 2013, quando lançou "Miserere", foi saudada pelos críticos como a maior poeta viva, ao lado de Manoel de Barros e Ferreira Gullar. O mato-grossense partiu em 2014 e Gullar, no ano passado. Adélia permanece, aos 81 anos, uma detetive da alma humana.

Desde que recebeu a benção de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), no lançamento de seu primeiro livro, "Bagagem", em 1976, ela não parou de escrever. Em dezembro, publicou "Cantiga dos Meninos Pastores", um poema que permanecia inédito, transformado em livro infanto-juvenil com ilustrações de Ângela Leite, pela editora Gulliver. "Eu própria sentia uma certa vergonha de estar escrevendo, uma espécie de 'entrei na festa errada', uma intromissão da minha parte, não sei se era uma mineirice da pior qualidade", diz Adélia neste "À Mesa com o Valor", sobre o começo de sua carreira, na década de 70.

Adélia recebe a reportagem em uma manhã inóspita de sábado em Brasília. A tempestade de raios e ventos, que derrubou árvores e inundou ruas, obriga que o encontro, agendado inicialmente em um bistrô francês, seja transferido para o salão de refeições do Hotel Mercure, onde estava hospedada. Ela já havia começado o café com o marido, Zé - o funcionário público José de Freitas, com quem é casada há 58 anos -, bem ao estilo mineiro: café com leite, pães de queijo, broas de milho e pão com manteiga. Há mini "pains au chocolat", um tanto murchos se comparados aos "croissants", que a chuva nos impede de degustar.

"'Bagagem' foi um livro de fundação, está carregado de histórias, tem a do Drummond, o lançamento em Divinópolis, a vizinha que viu minha foto no 'Jornal do Brasil', foi uma alegria, eu vi que era poeta, aí me deu um alívio", relembra. Com mais de 20 livros publicados, incluindo a participação em antologias, nove são de poesia. O segundo foi "O Coração
Disparado", que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 1978. Por último, veio "Miserere", em 2013.

"Este ['Miserere'] é um livro mais escuro, uma experiência de deserto. 'Bagagem' é ensolarado, minha vida naquele bairro, com meu pai ferroviário, minha mãe, uma vida corriqueira, mas ao mesmo tempo riquíssima. Com ele eu experimentei a transcendência, o sentido da vida."
Ela acolhe a reportagem com um sorriso largo e a aura leve, descansada. Não transparece que na véspera havia percorrido de carro os 750 km que separam Divinópolis da capital federal para à noite proferir uma palestra de duas horas e depois autografar livros até as 11 horas da noite.

O arrastar de mesas e cadeiras no salão, onde as pessoas circulam para se servir no bufê, e o burburinho das conversas, atrapalham a conversa e nos faz buscar um refúgio silencioso. O barulho deixa Adélia impaciente: "Você também não vai começar me perguntando como eu conheci o Drummond, né? Todos fazem isso".

As circunstâncias que cercam o encontro dos dois grandes poetas são conhecidas. Em 1973, ela enviou os originais de seu primeiro livro ao poeta e crítico Affonso Romano de Sant'Anna, que os submeteu a Drummond. Este recomendou a publicação da obra à editora Imago. Foi um lançamento prestigiado: além dos dois padrinhos literários, compareceram Clarice Lispector (1920-1977), Nélida Piñon e Antonio Houaiss (1915-1999). Para Adélia, Drummond e Clarice formam a "trindade sagrada" da literatura com João Guimarães Rosa (1908-1967), outro mineiro. Naquela ocasião, Adélia sentia-se intimidada pela hegemonia masculina na arte de escrever e questionava se não seria muita ousadia aventurar-se nessa lida.

Formada em filosofia, autodidata em psicanálise, foi depois de ler no I Ching, o oráculo chinês, que "o ato criativo é sempre
masculino", que se convenceu de que poderia seguir adiante como escritora. "Pensei: quando escrevo, eu sou homem mesmo, então eu posso também! Acho mesmo que o ato criativo é masculino, mas que não se constitui sem o feminino."

Ela faz questão de ser chamada de poeta. "A poetisa é a mulher que escreve poemas, mas eu não gosto da palavra, me lembra
declamadoras." Lembra que quando começou, havia muitas "declamadoras", e ela se distinguia porque escrevia poemas.

A religiosidade e a relação com Deus são temas predominantes em sua obra, como em "Miserere", em que converte em versos seus diálogos com o criador. Católica dedicada, já foi chamada de "poeta de sacristia", em tom pejorativo. No entanto, ela concilia o sagrado com o profano em outra vertente de sua obra - e sem nenhum estranhamento. Para ela, o religioso e o erótico não se contrapõem. "Todas as religiões são extremamente eróticas, o que possui vida é erótico, tem libido, tem força, tem energia. O erotismo é a energia do corpo, a atração que o corpo irradia." Ela destaca como o livro-guia das religiões cristãs é carnal e lembra que no passado as freiras eram até proibidas de lê-lo.

"A Bíblia tem pedaços que você quase não pode ler. Veja o Cântico dos Cânticos: 'Seus peitos são como dois filhotes gêmeos de gazela'. Olha que maravilha a palavra do amado para sua amada. Os cultos religiosos têm danças, rituais, abluções, gestos, é o corpo falando. A religião é uma experiência de Deus, e como eu experimento Deus? Estática como pedra? Os santos levitam quando estão em êxtase, o corpo é fundamental."

Aproveito para abordar o poema "Objeto de Amor", que termina com um verso provocativo: "c... é lindo!". Mas, antes que
eu pronuncie o monossílabo, ao ver que me embaraço e abaixo o tom de voz, ela me socorre: "Aquele em que eu cito a analidade...". Ela reconhece que embora o tenha escrito, não o declama em público. "Eu também não dou conta, mas está escrito, eu só faço o que eu dou conta."

Revela que o poema foi um dos poucos que lhe veio de uma vez só, como um insight. "Foi uma experiência, compreensão íntima da totalidade da realidade corporal. Este poema é uma permissão para eu amar a mim mesma, a perdoar que vim do macaco, que tenho um corpo, que se eu não o aceito, a minha infelicidade será tremenda. Aceitar o corpo e suas exigências, e
aceitar o corpo do outro, é estar em paz com a vida porque isso requer muita morte do ego."

O interesse pela obra de Sigmund Freud (1856-1939) e seus discípulos, e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961) pontuam as palestras nas quais a poeta é convidada a proferir em todo o país. Sobre sua cabeceira, repousam "A Resposta de Jó", de Jung, e "Ego e Arquétipo", do discípulo Edward F. Edinger (1922-1998), que lhe deram o pano de fundo da busca do religioso, da necessidade do espiritual.

"A psicanálise faz uma leitura desse comportamento religioso, e Jung sempre remetia seus pacientes à sua religião de origem. 'A Resposta de Jó' me saltou de uma maneira grande e profunda, me salvou na minha experiência de fé. Todo o problema da fé e da aceitação de algo que não tem controle, diante da qual eu devo me prostrar, que justifique minha existência. A gente fica perdido nas pequenas forças humanas, você quer algo maior no seu poder, esse algo maior eu vou chamar de Deus."

Ela se apruma na grande poltrona de couro preto, pede água e tenta driblar os flashes. Como não consegue se desvencilhar do fotógrafo, ajeita os cabelos muito brancos e escovados, o discreto brinco de pérolas e a camisa ampla, de poás sobre um fundo rosa suave.

Outro de seus "pequenos insights" foi "Com Licença Poética", uma reinterpretação de Drummond: "Quando nasci um
anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira". No último verso, ela diz: "a mulher é desdobrável, eu sou". Este verso foi uma autodefesa, num momento em que ela questionava se tinha permissão para escrever por ser mulher?

"Foi uma descoberta. Eu sofri na pele, como todas as mulheres no meu tempo, aquela coisa de que o homem é maior do que a mulher, a inveja do pênis, como diz o Freud, mas depois eu descobri essa desdobralidade, a gente se desdobra. Percebi com muita clareza um masculino em mim, e a necessidade que o homem também tenha o feminino."

Mas a mulher conquistou espaços na sociedade nas últimas décadas, desde que Adélia, aos 40 anos, enfrentou o dilema de se tornar escritora num ofício dominado por homens. Hoje as mulheres até pilotam aviões. Adélia ressalta, contudo, que paralelamente a essa evolução, a mulher não deve abandonar qualidades que lhe são inatas e a distinguem dos homens. Sem citar o nome de Simone de Beauvoir (1908-1986), afirma que o feminino "é o segundo sexo". "Não no sentido de ser inferior, mas complementar. É o sexo do anonimato, nos cabe o anonimato radical, como parte daquilo que eu chamo de humano. O feminino carrega as qualidades que são chamadas de fraqueza, mas que são nossa única força. Nós deveríamos ter por excelência a ternura, o perdão, a compreensão, a piedade, tudo o que é chamado de fraqueza são coisas do feminino
indispensáveis para que o humano aconteça", afirma.

Em um matrimônio estável e longevo com José de Freitas, mãe e avó dedicada, do tipo que imprime receitas na internet para testar em casa, Adélia acha que a mulher moderna está carente dessa feminilidade e erra ao tentar competir com o homem.

"Eu confirmo o homem na masculinidade dele, por isso não posso competir com ele. Mas eu sou indispensável, o homem sozinho não se faz. Pode ser monge, asceta, celibatário, se ele não tem o feminino, não consegue se realizar." Em parte de sua obra, a mulher aparece em seu retrato mais conservador, dedicada aos afazeres domésticos. O poema "Casamento" começa assim: "Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar".

Observo que quando ela começou a publicar, as mulheres queimavam sutiãs e organizavam outras formas de protestos para reivindicar igualdade de direitos e exigir respeito. Pergunto o que ela acha das feministas. "O feminismo já é um termo político, ele supõe bandeiras, isso é vão. Uma bandeira feminista que quer se afirmar como mulher em competição ou
em superioridade não vai a lugar nenhum. O valor da mulher e do homem, a dignidade de cada um, não é de dignidade de gênero, é dignidade da pessoa humana. É hediondo matar a mulher só porque ela é mulher? Não, porque ela é humana. Chegamos a um tal ponto de alienação que começamos a dar esses nomes, 'feminicídio', porque os valores do feminino desapareceram, estão em baixa, as mulheres são competidoras, e não cooperadoras."

E prossegue: "A bandeira feminista conseguiu para nós direitos civis importantes, mas você tem de ser uma engenheira mulher, uma médica sem perder seus valores. A gente vê as mulheres se tornarem companheironas dos homens", critica. "É a coisa mais triste, se o homem me tratar como companheirona, eu fico mal, eu não sou companheirona, eu sou uma mulher em contraposição a um ser humano que é homem. Quero que permaneça essa eletricidade entre homem e mulher."

Súbito, ela questiona se falou demais. Professora que exerceu o ofício por mais de 20 anos em salas de aula, acostumada a dar palestras de mais de duas horas, ela interrompe a entrevista para beber mais água. Distrai-se com o celular. Com a deixa, abordo o interesse pelo fundador da Apple, para quem ela criou o poema "Lápide para Steve Jobs", morto em 2011, que termina com estes versos: "Por agora, o que me faz prosseguir é sua indiferença. Esta ausência de milagre".

"Foi uma paixão tardia. Eu me apaixonei quando o vi em uma entrevista, depois li sobre a vida dele e falei: 'Que pessoa preciosa'. Senti a morte dele, rezei por ele, faço isso até hoje." A admiração pela figura humana de Jobs não tem correspondente na vida prática. Ela não gosta de tecnologia e não tem smartphone, por exemplo. "Meu celular é do modelo
mais simples, eu só atendo e desligo." O notebook que tem em casa (e não é da Apple) foi presente de uma leitora, surpresa com o atraso tecnológico da escritora. Adélia ainda prefere a caneta e os cadernos para escrever, mas recorre ao computador para pesquisar no Google, principalmente receitas, como a de iogurte caseiro.

Consagrada em sua arte, realizada dentro de casa e como mulher, o que lhe falta ainda conquistar?

"A cada dia quero ser uma pessoa melhor, o meu escopo agora é ter um exercício permanente de me abrir ao amor, à convivência com as pessoas, de ter com elas essa compaixão, essa ternura que eu sinto que existe comigo em relação a Deus. Que Deus me dê a graça de amar as pessoas e amar a mim mesma."

Ela se prepara para retornar para casa, em viagem de carro. "Tenho um medão danado de avião", confessa, embora já tenha
participado de eventos em Portugal, Cuba, Nova York, Alemanha. Há dez anos, a caminho de uma feira literária no Mato Grosso, fez a aeronave que taxiava na pista parar para ela descer. "Eu ia ter uma síncope, já sofri umas crises de pânico. Na hora eu pensei: 'Ou saio ou morro aqui dentro'." Desceu as escadas, a companhia providenciou uma cadeira de rodas e paramédicos mediram sua pressão. Ela não tinha nada. "Só medo."

De Brasília, leva a imagem de uma cidade "perturbadora". "É uma ilha de beleza, com árvores e prédios. Eu ligo isso quando sonho que estou em uma cidade edificada, com grandes prédios, sem ninguém dentro. Falta afeto porque não tem gente nas ruas. Aqui as pessoas estão muito compartimentalizadas, prédio disso, prédio daquilo."

Eu ressalvo que, entre quadras de hospitais, comércio, escolas e igrejas, também existe na capital federal um setor de "postos e motéis". Ela retruca: "Está vendo só, agora você humanizou Brasília!".

Fonte: “Valor Econômico – Andrea Jubé

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