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Se você não falar bem, deixará que mentiras o vençam na vida e no trabalho

Certa vez, ainda no início da minha carreira como professor
de oratória, conversava com um de nossos alunos que estava junto com a mulher.
Em determinado momento ele disse que desejava muito que a filha fizesse o curso
comigo. A mulher, depois de hesitar por alguns instantes, disse com voz firme:
"Acho que não. Não gostaria que ela fizesse um curso que ajuda a
mentir".

Fiquei chocado. Jamais imaginei que alguém pudesse ter esse
tipo de opinião. De lá para cá, de forma mais ou menos contundente, vez ou
outra ainda constato que algumas pessoas se manifestam com ponto de vista
semelhante. Dizem, por exemplo, que os políticos são mentirosos contumazes, e
que aprenderam técnicas para agir assim.

Não há como negar que as técnicas da oratória podem mesmo
servir tanto para o bem como para o mal. Foi a palavra que promoveu a paz,
fazendo com que povos que viviam digladiando passassem a conviver em harmonia.
Foi a palavra também que levou povos a iniciarem guerras que dizimaram
populações inteiras.

Quando o ex-presidente Jânio Quadros participou de um dos
eventos do nosso curso de Expressão Verbal, abordou com muita propriedade esse
tema.

Comentou como a palavra pode ser usada para diferentes
finalidades, tanto para as boas causas como para as más. Assim falou o famoso
orador:

"A palavra é extraordinariamente poderosa. Ela é
dúctil. Ela pode ser boa e pode ser má. Ela pode ser suave e pode ser áspera.
Ela pode ser franca e pode ser velada. Ela pode ser honesta e pode ser
malévola. A palavra em si tem mesmo o fogo da inspiração divina.

Mas a palavra é a bíblia também. Leiamo-la no velho
testamento e no novo testamento. A palavra levou os profetas a divulgarem a
advinda de Cristo, e a palavra levou os apóstolos a anunciarem a sua morte e a
sua glorificação. A palavra permitiu ao apóstolo João escrever o apocalipse, que
não conseguimos interpretar até hoje, pois nem sempre sua leitura é
satisfatória.

De sorte que as palavras podem ser temíveis sim, e podem
voltar-se contra quem as utilize. Elas são armas de dois gumes. Daí o cuidado
que devemos ter no usá-la; esse dom divino não nos veio gratuitamente, ele nos
veio com a razão, com a experiência e com o estudo".

Há pouco tempo folheava a 6ª edição do livro "Lições
elementares de eloquência nacional", de Francisco Freire de Carvalho,
publicada em 1861. Na abertura da obra encontrei uma anotação feita à mão em
1890. Reproduzia um trecho do livro "Doutrinas Cristãs", de Santo
Agostinho. Uma preciosidade!

Nesse texto, Santo Agostinho faz a defesa do estudo da
retórica. Explica que é a arma que temos à disposição para combater o mal e a
mentira. É uma mensagem tão excepcional que eu e a Rachel Polito usamos na
conclusão do livro que acabamos de escrever, "Oratória para
pregadores":

"É um fato que, pela arte da retórica, é possível
persuadir o que é verdadeiro como o que é falso. Quem ousará, pois, afirmar que
a verdade deve enfrentar a mentira com defensores desarmados? Seria assim?
Então, esses oradores, que se esforçam para persuadir o erro, saberiam desde o
proêmio conquistar o auditório e torná-lo benévolo e dócil, ao passo que os
defensores da verdade não o conseguiram? "

Depois de levantar até de forma irônica esse questionamento,
Santo Agostinho repete o argumento com termos diferentes, mostrando indignado
antes a vantagem de quem usa a palavra para o mal sem ser contestado, já que os
oponentes não estariam capacitados para a defesa do bem e da verdade:

"Aqueles apresentariam a verdade de maneira a torná-la
insípida, difícil de compreensão e finalmente desagradável de ser criada?
Aqueles, por argumentos falaciosos, atacariam a verdade e sustentariam o erro,
e estes seriam incapazes de defender a verdade e refutar a mentira? "

Com afirmações mais contundentes, resvalando no patético,
ainda mais indignado, Santo Agostinho insiste na defesa de sua tese. Observe
como suas palavras, sem abandonar o tom irônico, são agora mais duras. Se havia
alguma dúvida sobre suas ponderações, este seria o golpe final:

"Aqueles, estimulando e convencendo por suas palavras
os ouvintes ao erro, os aterrorizariam, os contristariam, os divertiriam,
exortando-os com ardor, e estes estariam adormecidos, insensíveis e frios ao
serviço da verdade? Quem seria tão insensato para assim pensar? "

Finalmente, após impregnar a mente do leitor com a força de
seus argumentos, conclui com uma reflexão. Ora, se os leitores aceitaram suas
alegações iniciais, as chances de que chegassem à conclusão que pretendeu
seriam maiores. Para que não ficasse dúvida, entretanto, assim que termina a
reflexão ele expõe o que poderá ocorrer se a defesa da verdade e das boas
causas não prevaleçam:

"Visto que a arte da palavra possui duplo efeito (o
forte poder de persuadir seja para o mal, seja para o bem), por qual razão as
pessoas honestas não poriam seu zelo a adquiri-la em vista de se engajar ao
serviço da verdade? Os maus põem-na ao serviço da injustiça e do erro, em vista
de fazer triunfar causas perversas e mentirosas".

Assim devemos encarar o estudo da oratória. Esse é e sempre
deverá ser o percurso no estudo da retórica. Precisamos desenvolver a arte de
falar em público com afinco e determinação para que possamos nos capacitar para
enfrentar a falsidade, a mentira e a dissimulação. Caso contrário, aqueles que
a dominarem para o mal, sem encontrar adversários à altura farão prevalecer
suas teses.

E não apenas as grandes maldades, mas principalmente aquelas
que nos cercam no dia a dia, no relacionamento social ou nas atribulações da
vida corporativa. Quantos projetos excelentes são recusados porque receberam de
seus opositores ataques mentirosos ou equivocados, e seus defensores não foram
capazes de refutar as posições contrárias!

Os trabalhos, ideias, projetos, propostas e tarefas só
conseguirão êxito se forem defendidos de forma competente. Por mais elevada que
seja uma causa, por si, apenas a força da sua correção, talvez não seja
suficiente para afastar os que se opõem a ela. Precisam quase sempre contar com
o apoio da boa comunicação para que atinjam seus objetivos.

Superdicas da semana

- Desenvolva as boas técnicas da comunicação para que sua
verdade prevaleça

- Nos velhos livros sempre encontramos lições atuais

- Leia os bons filósofos e bons teólogos. Eles têm muito a
nos dizer

- A palavra serve para o bem e para o mal. Que as nossas
mensagens sejam sempre para o bem.

Fonte: Uol Economia

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