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Richard Holbrooke, que chefiou a Missão dos EUA na ONU e foi um dos arquitetos dos Acordos de Dayton – pilares da estabilização nos anos 1990 nos Balcãs– dizia que a liderança norte-americana nos palcos mundiais assentava-se em três bases: seu poderio militar, a grandeza e dinamismo de sua economia, e a defensabilidade universal de seus valores de democracia e livre mercado.
 
Henry Kissinger, que dispensa apresentações, jamais deixou de ser um "realista" das relações internacionais. No entanto, sempre defendeu, como diplomata ou acadêmico, que cabia os EUA o papel central na salvaguarda e expansão de uma "ordem liberal".
 
Toda essa ênfase na questão moral da função dos EUA no mundo, da importância e mesmo "superioridade" de seus valores, sempre foi referência para que os formuladores de política externa dos EUA justificassem a "excepcionalidade" do poder americano.
 
Ao contrário de outras potências do passado e do presente, para os EUA o tabuleiro global não seria apenas um "jogo de soma zero" (eu perco, você ganha).
 
O sentido da atuação global americana ultrapassaria as noções mais cruas de poder. Tradicionalmente, elas se limitam à coerção mediante o poder de dissuasão militar ou recompensas materiais por este ou aquele país manterem-se filiados a um sistema econômico cuja centralidade cabe aos EUA.
 
Haveria também um outra dimensão do poder, utilizada amplamente pelos EUA –aquele a emanar do compartilhamento de seus valores e visão. Ou seja, um tipo de poder que reside em fazer com que os outros desejem o mesmo que você.
 
Tal forma de poder recebeu, na reflexão do professor Joseph Nye, de Harvard, a classificação de "soft power".
 
A partir dele, os EUA liderariam pelo exemplo que seu próprio sistema político e objetivos de política externa projetam para o mundo.
 
Por essa lógica, já que os EUA são uma das economias mais abertas do mundo, a diplomacia americana legitima-se na negociação de acordos comerciais para a abertura de mercados em outros países.
 
Na medida em que a ascensão social nos EUA se dá por critérios meritocráticos, este também deve ser o referencial para o mundo.
 
Na certeza de que são maior e mais funcional democracia do planeta, então aí se encontra a matéria prima para uma política externa de antagonização a regimes autoritários.
 
Por mais ou menos distantes que tais parâmetros tenham estado da realidade desde que os EUA ascenderam ao pináculo das relações internacionais ao final da Segunda Guerra Mundial, recorrer a valores como livre mercado, competição, meritocracia, democracia formaram a essência da estratégia "intangível" de influência americana sobre o mundo.
 
Se o próximo presidente evadir-se de promessas de campanha – particularmente aquelas relacionadas à construção de muros, indução a guerras comerciais ou políticas industrias do tipo a "América em primeiro – então Trump larga na Casa Branca com um imenso déficit de credibilidade.
 
E isso não apenas junto a potências estrangeiras, mas também, o que é pior, junto a seus próprios eleitores. E credibilidade, por definição, é ingrediente indispensável do "soft power".
 
Além disso, qual a credibilidade dos EUA na promoção de comércio internacional se a Washington de Trump der um cavalo-de-pau no Tratado da Parceria Transpacífico (TPP), assinado em outubro do ano passado?
 
Que legitimidade terão para demandar abertura de mercados em outros países se impuserem barreiras tarifárias unilaterais ou mesmo levarem a efeito uma política industrial "local-conteudista" em larga escala?
 
De uma ou outra forma, a eleição de Trump – e a era de discursos e ações irreconciliáveis que aparentemente se inicia – desferem duro golpe no soft power americano.
 
 
Fonte: Folha de São Paulo

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