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O cientista político Luiz Felipe D’Ávila vem desenvolvendo
há anos um trabalho de capacitação e formação de lideranças políticas em seu
Centro de Lideranças Públicas (CLP). Confrontado com o resultado das eleições
municipais deste domingo (03/10), que reconduziu perto de metade dos prefeitos
ao cargo, ele não se espanta: “Os prefeitos que resolveram os problemas
prementes da cidade e tiveram 70% ou mais de aprovação entre ótimo, bom e
regular do eleitor, foram reeleitos”. Mas o quadro não é simples. Entre o
esfacelamento do grande partido de massas à esquerda que foi o PT e o
surgimento de novas lideranças que despontem com as virtudes de estadistas, o
país precisa se refazer dos estragos do populismo e qualificar suas lideranças.
O Estado da Arte conversou com D’Ávila sobre esses e outros temas. Confira:

O PT perdeu mais de
60% dos votos para prefeitos nesta eleição. É possível, para um partido
enfrentando uma crise dessa dimensão, recuperar-se?


É possível, mas exigirá coragem para rever crenças,valores e
atitudes e abandonar o discurso de vítima da mídia golpista, da elite e de
políticos traidores. Enquanto culpamos os outros por nossos infortúnios, não
existe maturidade e clima para fazer a revisão de crença e de atitudes que
prejudicaram enormemente o PT.

Após quase quatro
anos de oscilantes mas expressivas mobilizações de rua (2013 – 2016), a
expectativa para as primeiras eleições pós-impeachment era de renovação. Os
resultados da eleição, no entanto, indicam a reeleição de perto de 50% dos prefeitos.
A expectativa de renovação era ilusória ou não havia alternativas políticas
atraentes para os eleitores?


A eleição de prefeitos é, acima de tudo, um voto de
aprovação ou desaprovação de uma gestão municipal. Os prefeitos que resolveram
os problemas prementes da cidade e tiveram 70% ou mais de aprovação entre
ótimo, bom e regular do eleitor, foram reeleitos. O prefeito tem que resolver
os problemas do cidadão, não importa o partido ou se é um político moço ou
velho.

O PSDB foi o partido
que mais cresceu nestas eleições. Mas qual PSDB, exatamente? Qual é a
identidade política desse partido que sai vitorioso das urnas?


A vitória das eleições não pode ser debitada necessariamente
a legenda, mas as propostas defendidas pelos candidatos. O PT foi massacrado
nas urnas porque além dos escândalos da Lava Jato e do desemprego, os seus
candidatos tiveram de defender o partido, a Dilma e o Lula ao invés de
apresentar propostas para resolver os problemas da cidade. Ao nacionalizar a
eleição municipal, perderam o elo com o eleitor.

As eleições de 2016
foram marcadas por casos preocupantes de extrema violência, com direito ao
assassinato de candidatos (como em Goiás) e a locais de votação incendiados
pelo crime organizado (Maranhão). O que isso nos revela sobre o amadurecimento
das instituições políticas brasileiras?


A violência pode ter motivos políticos, mas os assassinatos
são casos de polícia. O problema no Brasil é que a segurança pública é um dos
maiores problemas nacionais.O número de mortes por 100 mil habitantes no Brasil
é equivalente à de países em guerra. A ONU considera o número de assassinatos
no Brasil “uma epidemia”nacional.

Muito se falou sobre
desde o domingo das eleições (03 de outubro) acerca dos altos índices de
abstenção e votos nulos e brancos. Na sua avaliação, esses índices são
significativos? O que eles revelam sobre a atual conjuntura política?


Nas democracias avançadas, onde o voto é facultativo, o
índice de eleitores que votam é baixo. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas
48% dos eleitores votaram para presidente da República; para o Congresso, a
média é de 35%. Como no Brasil o voto é obrigatório, o número de abstenção,
nulos e brancos são dos eleitores que não se interessam ou repudiam o jogo
políticos. São aqueles que não votariam se o voto fosse facultativo.

À frente do Centro de
Lideranças Públicas, você trabalha com a capacitação de quadros políticos de
inúmeras prefeituras e governos estaduais de todos os partidos para que tenham
melhor desempenho em suas gestões. Qual é o maior gargalo de qualificação que a
gestão pública brasileira enfrenta?


Um dos grandes prazeres de trabalhar no CLP é constatar que
há muita gente boa na política. Governantes que promovem mudanças
transformadoras e servidores públicos competentes e dedicados que fazem a
diferença na gestão pública. Para melhorar a gestão pública, temos de formar
bons servidores e oferecer cursos preparatórios para que estejam preparados
para resolver problemas reais. Para isso, precisam estar capacitados para
analisar dados e fatos, ao invés de interpretar os problemas do ponto de vista
ideológico e partidário. Dados e fatos ajudam a moldar boas políticas públicas;
ideologias e partidarismo levam a leituras erradas de diagnóstico e a políticas
populistas.

Em 2013, você lançou
o livro Caráter e liderança: Nove estadistas que construíram a democracia
brasileira (Editora Mameluco), em que mostra as diferenças entre aqueles que
simplesmente exercem o mando na política e aqueles que realmente contribuem
para o aperfeiçoamento das instituições. Há alguém na nova configuração
política do país que tenha esse perfil?


O populismo que prevaleceu nos anos petistas foi um desastre
para as instituições democráticas. Aumentou o personalismo político, a
demagogia e o partidarismo que politizaram o Estado, as agências reguladoras e
as empresas estatais. A consequência desse enfraquecimento das instituições está
devidamente registrada na corrupção da Lava Jato, na maior depressão econômica
da história do país e em 12 milhões de desempregados. Vamos precisar de grandes
estadistas para tirar o Brasil do buraco. O risco que corremos é que se não
tivermos coragem para aprovar as reformas necessárias da previdência, do teto
do gasto público e trabalhista, o Brasil pode ter um novo surto de populistas
disputando as eleições presidenciais em 2018.

Fonte: Estadão

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