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Quando a palestra parece lobby

Quem já assistiu sabe o quanto é valiosa uma palestra do ex-presidente Bill Clinton. O homem parece saber de tudo o que se passa pelo mundo. E sabe mesmo. Ainda que seja uma pessoa pouco afeita ao trabalho pesado, como era Ronald Reagan, o presidente dos EUA tem que tratar de todos os problemas locais e globais.

Sendo um político empenhado e um homem culto, Clinton acumulou enorme sabedoria. Além do mais, o cara tem o dom da fala e do bom humor. Charmoso, dizem os admiradores; demagogo, dizem os outros.

Agora, será que uma hora ou, vá lá, duas horas de palestra com Clinton valem US$ 700 mil? O ex-presidente fez quatro palestras nesse valor, duas delas para um jornal da Nigéria (!). Outras dez por 500 mil dólares e muitas na casa dos 100 mil, as mais baratas. Somando tudo desde 2001, Clinton ganhou US$ 104 milhões contando histórias por aí.

Não há como estabelecer o valor objetivo ou real de uma palestra. Mas o mercado define. Simples assim: se há contratantes que pagam o preço e se há pessoas que compram bilhetes para ouvir Clinton, então vale o que está no contrato.

Não é feio ganhar dinheiro nos EUA. Ao contrário, é reconhecimento de sucesso profissional. Ex-governante palestrante é um tipo de profissão mundial, inclusive no Brasil. Tony Blair ficou rico. Lula e FH ganham bom dinheiro com isso. Como disse o próprio Clinton, “a gente tem de pagar as contas”.

Mas por que os jornalistas americanos têm levantado esse tema? Porque Clinton não é apenas ex-presidente. É o marido de Hillary, fortíssima candidata a presidente. E que foi uma poderosa secretária de Estado.

Uma coisa é contratar um político aposentado; outra, bem diferente, é pagar 500 mil dólares para um provável futuro “primeiro cavalheiro” da Casa Branca.

Clinton fez palestras quando Hillary era secretária de Estado, quando ela concorreu com Obama pela indicação democrata e diz que vai continuar no mercado mesmo durante a atual campanha.

Além disso, o ex-presidente mantém a Fundação Clinton, uma instituição filantrópica que recolhe muito dinheiro para ações meritórias, como a ajuda às vítimas do terremoto no Haiti, em 2010. Só neste caso, a fundação recebeu uma doação de 500 mil dólares do governo da Argélia.

O dinheiro foi todo, comprovadamente, para o Haiti. Ninguém duvida disso. Mas, nessa época, o governo da Argélia estava tentando sair da lista americana de países que violam os direitos humanos.

Pois é. Parece, não é mesmo?

Bill Clinton reconheceu que houve um erro aí. A fundação, disse, não poderia ter recebido doações de governos enquanto Hillary fosse secretária de Estado. E informou que foi apenas aquele caso.

Fora dessa época, Clinton levantou milhões na física e na PJ junto a governos diversos, bancos (inclusive russos), empresas e fundações mundo afora.

Esse é um tema que atinge a candidatura de Hillary, cujo foco central é a empobrecida classe média americana. Como disse o jornal “Financial Times”, depois de ressalvar a qualidade e o mérito da filantropia de Bill: “Desafia o bom senso acreditar que governos dariam dinheiro para uma fundação americana que não carregasse o nome Clinton”.

O ex-presidente e Hillary dizem que isso é coisa de campanha, mas reagiram de um modo muito positivo: ampla informação, transparência. Ou seja, todos sabem quanto Bill Clinton recebe por palestras, de quem recebe e sabem que esse dinheiro é na física. É pública a contabilidade da fundação, com informações detalhadas de receitas e gastos.

Quanto vale uma palestra do ex-presidente Lula? Aliás, Lula é um ótimo palestrante, embora sua fala perca muito quando é traduzida. Mas o valor da atividade é problema dele e dos seus contratantes. É na física? Tudo certo. Vai ficar rico? Dinheiro dele.

Mas falta transparência, especialmente porque Lula, se não continua no governo, tem óbvia influência sobre o aparelho de Estado brasileiro.

Eis, portanto, o caso: uma empresa brasileira, que fez negócios com o governo Lula, contrata o ex-presidente para falar em outros países e conversar com os governantes locais, que contratam obras daquela empresa brasileira, com financiamento de um banco público brasileiro.

Como no caso Clinton, é só uma palestra ou pode ser um lobby? Pode não ser, claro, mas parece.

A resposta tem que ser como no caso Clinton. Quem contrata Lula? Quanto paga? Como foi o evento? E sobretudo, em quais condições o BNDES financia as obras externas de empreiteiras que contratam o ex-presidente?

Sempre ficará a dúvida: contratariam Lula se fosse apenas um político aposentado? A transparência da contabilidade ajudaria a dissipá-la.

E FH? Como ex-presidente, tem compromisso com a transparência, mas sua situação é obviamente mais tranquila. Quem pensasse em contratá-lo como lobista estaria muito mal informado.

Artigo por: Carlos Alberto Sardemberg

Fonte: O Globo

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